quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

A série de despedidas


Bom, o lance é o seguinte: tenho quatro dias para me despedir da vida normal, serão três meses suspenso, no balanço entre o inverno e o verão como um aluno de intercâmbio.

A série “despedidas” já começou há uma semana, quando alguém acenou de dentro de um carro para mim ao som do hitzinho mais tocado na minha playlist no momento, elephant gun, do Beirut. Desde então a largada foi dada.

É difícil suspender uma vida de geladeira própria, de amigos escudeiros, de projetos íntimos e cafés da tarde, para se aventurar na grande casa da família, o patriarcado tão ordinariamente engraçadinho e conflituoso em que cresci imitando e depois questionando toda a patota reunida. O fato é que eu ainda não organizei as malas, não sei o que levar, não sei se as devo ocupar com mais livros para deslanchar o projeto de monografia ou se devo levar roupas para me sentir menos ordinário. Estou entre o genial e o trivial, pra tentar fazer diferente, sabe?

Quatro dias para despedida, três meses cheios de novidades e três anos de recordações. Ah é, há três anos eu me despedia da família para cair de boca nas ladeiras barrocas de Ouro Preto, sentia que a minha vida estava naquela terra de broas de fubá e café com leite, e hoje eu sinto que está aqui ao meu lado porque eu fiz questão de trazer tudo na mochilinha que sempre fura com o peso insistente das minhas necessidades. Talvez a vida seja uma constante linha de despedidas onde sempre seremos alunos de intercâmbio, aprendendo idiomas novos e comportamentos coerentes com o local. Talvez sejamos menos livres do que imaginamos, moçada. Sim, porque somos políticos austeros dentro de “corpitchos” rechonchudos e aparentemente libertinos (vovó adorava ressaltar a diferença entre a liberdade e a libertinagem e no alto dos seus traumas, ela estava correta no final das contas, ela sabia, pelo menos, distinguir dois conceitos meio funestos para a nossa “modernidade”)

Tenho um sério problema em perder o foco das coisas, eu estava falando sobre despedidas, ora bolas e fui parar nos traumas da vovó. Bem, para justificar, os olhos da vovó eram sempre os mais dramáticos com as despedidas, talvez venha daí a referência.

Quatro dias e vovó esperando. Serão três meses ciganamente dormidos. Não será tão alegre e nem tão tenebroso, tenho coisas para consertar, surpresas a oferecer, banquetes a la série melodramática norte-americana. Nossa, teremos Natal e missa do galo. Peru e farofa, chester pra quem preferir.

Sou pretensioso, engraçadinho e entupidamente nostálgico, mas vivo assim, vivi até hoje e sei que serei um bom velhinho eremita com tudo isso que tenho.

O que vem por aí? Vem overdose de avô, um documentário para começar a filmar no meio do nada (ou tudo), uma mãe para abraçar nos intervalos da novela, priminhos para festejar e xingar, tios e tias para questionar e no fundo amar profundamente, sem tirar nem pôr. Paris virá com um inverno rigoroso em pleno verão espiritual, virá uma tia quase mãe super novidadeira com os seus cabarés e amigos interessantes. Terei uma semente que estará em pleno Colorado comendo fast-food e aproveitando todos os outlets possíveis, teremos um yankee por perto no ano que vem, eu espero. Serão blueberry nights do outro lado da rua.

Vamos lá, enfrentar a outra parte dos pretextos e das audácias, deixarei as ladeiras, emoções entusiásticas e os amigos-família no ar para pular de cabeça em outras sensações, férias... serão férias.

por: Guto Franco

Guto gastou várias linhas falando sobre si, não gosta muito disso, mas sabe que as despedidas são superadas dessa forma, marcando-as no papel para um dia mostrar aos filhos que a vida é assim mesmo.

Um comentário:

Mayhara disse...

20:20
de preguiça, de vazio, de vontade de te ruma bebida. e não é por alguém, por alguma coisa.. e de sei lá, de mim.

tem me feito muito bem. viu.
vai estar sempre comigo. ;*